terça-feira, 27 de outubro de 2015

As competências digitais dos formadores

Para além de fatores de cariz eminentemente organizacional e cultural, como a resistência à mudança e a inércia própria das instituições de formação, aliás abundantemente estudados e normalmente referidos como justificação para “atrasos” de outra índole, este tipo de justificações desloca para os diferentes agentes de educação e formação em particular a responsabilidade do estado atual nomeadamente em termos da sua incapacidade de inovação e mudança.
Segundo Peralta e Costa (2008) são, de facto, numerosas as razões para a resistência ao uso das tecnologias em contexto educativo por parte dos formadores. Nuns casos receiam o que isso trará de novo e as alterações que será necessário fazer nos modos como trabalham, noutros casos receiam não poder dispor das condições necessárias para implementar as mudanças pretendidas, ou pura e simplesmente não desejam participar nessa mudança.
Os obstáculos que classifica de primeira ordem, são tipicamente de natureza extrínseca, porque são externos ao formador ou requerem uma determinada intervenção “tecnológica” para que a mudança possa ocorrer, como por exemplo, a falta de computadores ou a dificuldade de acesso a programas específicos. Inclui nesta primeira categoria o acesso ao hardware, o acesso ao software, o tempo necessário para a planificação, o apoio técnico e o apoio administrativo. Os obstáculos de segunda ordem, são “internos” ao formador e podem manifestar-se de formas diferenciadas. O receio dos computadores, ou o sentimento de insegurança que manifestam na sua presença são exemplo disso. O que Perrenoud (1999) sublinha é precisamente o facto de, muitas vezes, os obstáculos de primeira ordem esconderem os de segunda ordem. Inclui nestes, não apenas as teorias dos formadores (teorias implícitas, crenças) sobre a tecnologia, mas também as suas conceções sobre a formação, o próprio contexto organizacional da instituição de formação, a falta de consistência dos modelos de ensino, a falta de vontade para mudar.
O limitado uso das tecnologias é justificado por muitos pelas dificuldades inerentes à realidade cultural das próprias escolas, e pelas variáveis diretamente relacionadas com os próprios formadores (conhecimentos, competências, atitudes, crenças) (Dias, 2001), sendo estes aspetos mais difíceis de superar do que a falta de equipamento (computadores e programas), que constituía, pelo menos até há bem pouco tempo, um dos motivos mais alegados pelos formadores para justificarem o uso reduzido dos mesmos na sua prática pedagógica.
Segundo Alarcão (2001), um formador tem mais facilidade em adaptar-se a uma determinada inovação se as suas expectativas encaixam bem na sua conceção de formador. À semelhança do que se passa noutras áreas, como, por exemplo, na Matemática ou nas Ciências, em que é visível a influência que têm as crenças dos formadores nas suas práticas, é possível que seja similar a relação entre o uso das TIC. Verifiquemos o estádio em que um formador se pode encontrar de acordo com as suas competências digitais (Figura 1).

Estádio
Exemplo do que os formadores fazem
Entrada
Aprende o essencial para usar novas tecnologias
Adoção
Usa as novas tecnologias enquanto suporte de ensino tradicional de transmissão
Adaptação
Integra as novas tecnologias nas práticas tradicionais como forma de aumentar a capacidade produtiva dos formandos através da utilização de processadores de texto, folhas de cálculo ou de apresentações eletrónicas
Apropriação
Incorpora o potencial de cada tecnologia em projetos de trabalho interdisciplinar e colaborativos
Invenção
Descobre novos contextos de uso das diferentes tecnologias disponíveis, combinando o seu potencial ao serviço do desenvolvimento dos formandos
Figura 1 – Estádios de Competências Digitais (formadores)

Alarcão, I. (2001). Professor - investigador: Que sentido? Que formação? Cadernos de Formação de Professores. n.º1. p.21-30. Universidade de Aveiro.
Dias, P. (2001). Comunidades de Conhecimento e Aprendizagem Colaborativa. Seminário Redes de Aprendizagem, Redes de Conhecimento. Lisboa. Conselho Nacional de Educação.
Peralta, H. & Costa, F. (2008). Competência e confiança dos professores no uso das TIC. Síntese de um estudo internacional. Sísifo. Revista de Ciências da Educação. n.º 03. p.77-86. Retirado de http://sisifo.fpce.ul.pt/pdfs/sisifo03PT06.pdf
Perrenoud, P. (1999). Formar professores em contextos sociais em mudança: prática reflexiva e participação critica. n.º 12. p.05-2. Revista Brasileira da Educação.